João Cutileiro
João Cutileiro (Lisboa 1937- Évora 2021).
Viveu e trabalhou em Évora de 1985 a 2021.
Frequentou a Escola Superior de Belas Artes de Lisboa entre 1953 e 1955, altura em que decide optar por concluir formação em Londres na Slade School of Art o que ocorrerá entre 1955 e 1959, na Slade foi aluno do escultor Reg Butler, tendo recebido três prémios no final do curso - de composição, figura e cabeça. Nessa época trabalhou muito próximo de Reg Butler, expôs na I Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa (1957) e duas vezes na Galeria Young Contemporaries, em Londres (1957 e 1959).
Em 1964 ensaia as suas primeiras figuras articuladas. Em 1966, introduz a utilização de ferramentas elétricas no trabalho escultórico, essencialmente em mármore, surgindo, para além das figuras, as paisagens, as caixas, as árvores… Ao longo da década de 1960, vivendo em Londres, Cutileiro fará diversas exposições em Lisboa e uma no Porto.
Em 1970 regressou definitivamente a Portugal instalando-se em Lagos, onde criará uma das suas obras de referência, o D.Sebastião que José Augusto França identificou como “uma rutura escandalosa” com escultura que ao tempo se fazia em Portugal.
Conquistou prémios, produziu uma obra imensa, expôs e tem obras suas em todos os continentes.
João Cutileiro é, indiscutivelmente, um dos mais singulares artistas portugueses do século XX. Excessivo, festivo, generoso, o seu trabalho marcou decisivamente a paisagem artística e cultural em Portugal a partir do final dos anos 1950 e início dos anos 1960.
O Centro Internacional de Arte José de Guimarães organizou, em 2018, uma exposição sob título Constelação Cutileiro onde se ensaiou, finalmente, “uma espécie de cartografia celeste da geometria das relações, afetos e interações de que Cutileiro, espécie de astro solar, foi o ponto referencial e o campo magnético de uma conjugação energética” que viria a transformar radicalmente a escultura portuguesa do século XX aportando contributos essenciais para a sua definição no século XXI.
“Trabalhando com materiais como o cimento fundido, o bronze, o ferro soldado, o gesso ou o mármore corroído com ácido, por exemplo, João Cutileiro abriu um modo novo de encarar a prática escultórica em Portugal, baseada numa abordagem performativa, iminentemente matérica, oscilando entre forma e informe, remetendo para motivos ou arquétipos da história ou da pré-história da escultura, num diálogo entre épocas e geografias diversas.
As Vénus do Paleolítico, a arte egípcia ou etrusca, Giacometti, Pompeia, a tradição da arte funerária ou a influência do surrealismo, marcam na obra do jovem artista uma prática extraordinariamente heteróclita, em que a radicalidade no uso dos materiais convive com uma inusitada audácia formal e estilística.”
Em Évora foi o motor, com o Ar.Co, da organização, em 1981, do I Simpósio Internacional de Escultura em Pedra que constituiu um marco fundamental no espectro da produção escultórica em Portugal no século XX, reunindo nesta cidade, onde haveria de fixar-se definitivamente em 1985, um grupo excecional de escultores estrangeiros, nomeadamente Sergi Aguilar, Andrea Cascella, Minoru Niizuma, Syoho Kitagawa e Pierre Szekely e um grupo de jovens escultores em que pontuavam Rui Anahory, Brígida Arez, José Pedro Croft, Amaral da Cunha, Pedro Fazenda, Luísa Periennes, Pedro Ramos, Manuel Rosa e António Campos Rosado. Muitos destes farão parte da “constelação Cutileiro” a que já aludimos – artistas que pela influência direta, pela cumplicidade criativa, pelo estímulo ou pela convivialidade constituem parte da herança cultural e artística de João Cutileiro.
Consciente do seu papel e generoso na convicção de que um seu legado poderia contribuir para o desenvolvimento cultural do seu país e para estímulo e oportunidade de trabalho de outros, particularmente das novas gerações de escultores, quis entregar ao Estado a sua casa de Évora, que compreende o seu atelier, todo o seu arquivo pessoal e uma importante seleção de obras representativas do seu percurso artístico.
A Direção Regional de Cultura do Alentejo, acompanhou este processo desde 2015 e foi desenvolvendo trabalho consistente em torno do Legado Cutileiro procurando comunicar publicamente a dimensão do artista e a sua importância para a história coletiva do país. Nesse sentido começou por ser estudada a escultura pública, a partir do conjunto de maquetas que fazem parte das coleções a doar ao Estado, donde resultou uma exposição, no Museu de Évora (Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo) e o respetivo catálogo A Pedra não Espera. Maquetas e escultura para o Espaço Urbano, para além da produção de um documentário fílmico da autoria de Graça Castanheira, com análogo título. Um outro conjunto do Legado Cutileiro – Flores para Mapplethorpe - foi trabalhado e instalado no antigo Coro Baixo do Convento de S. Bento de Cástris, em Évora.
João Cutileiro foi condecorado com a Ordem de Sant’Iago da Espada, Grau de Oficial, a 3 de agosto de 1983. Receberia ainda o Doutoramento Honoris Causa pela Universidade de Évora – Escola de Artes em 2013 e pela Universidade Nova de Lisboa - Faculdade de Ciências Médicas, já em 2017 em reconhecimento do seu contributo nos cruzamentos entre a Arte e a Ciência Morfológica.
Em reconhecimento do inestimável trabalho de uma vida dedicada à arte, à criação artística e à divulgação e fomento da escultura, difundindo, ao longo de mais de setenta anos, a cultura portuguesa, em Portugal e no estrangeiro, o Governo português prestou pública homenagem a JOÃO CUTILEIRO, concedendo-lhe, em dezembro de 2018, a MEDALHA DE MÉRITO CULTURAL.
Centro de Arte
O Centro de Arte João Cutileiro é uma Associação Cultural e Criativa que nasce em 2018 motivada pelo legado do escultor João Cutileiro ao Estado Português, consistindo na sua casa/atelier de Évora, (Rua de Viana, n.º 13) e num conjunto muito significativo de peças de escultura, desenho e fotografia, bem como do seu arquivo pessoal.
Neste contexto, o Centro de Arte João Cutileiro tem por missão e objetivos:
. Desenvolver programas culturais e criativos nos domínios da arte contemporânea com especial ênfase para a escultura;
. Gerir e promover o legado artístico do escultor João Cutileiro, nacional e internacionalmente;
. Gerir e dinamizar o Centro de Arte João Cutileiro (Casa/Atelier) na perspetiva da sua abertura ao público, da organização e produção de exposições, da dinamização de atividades de mediação cultural e do estabelecimento e desenvolvimento de projetos de educação não formal, entre outras atividades;
. Colaborar com outras entidades, públicas e privadas, que trabalhem em prol da promoção e do desenvolvimento cultural das comunidades;
. Promover, organizar e realizar iniciativas de índole cultural, criativa, recreativa e/ou social que visem sensibilizar e mobilizar a sociedade civil, empresas e outras instituições em prol de respostas culturais de qualidade;
. Promover residências artísticas, apresentações, projetos de formação e investigação artística, projetos de intercâmbio internacional, numa dinâmica de apoio, dinamização e divulgação da criação artística nacional e internacional.